Meu sonho foi banhado por imagens terríveis, em uma delas estava uma jovem morena de cabelos longos jogada ao chão sem movimento, ela estava morta. Não havia sinal nenhum aparente de sua causa mortis, mas eu sabia que ela estava morta. Sua pele estava tremendamente pálida, os olhos vítreos fixos para o alto, não havia brilho, ele passava uma única sensação, morte. Um segundo depois ela desapareceu e consegui ver em um vislumbre a silhueta de um homem envolto em um manto negro. Não consegui ver mais nada, mas sentia que seus olhos me fintavam.
Despertei com um salto da cama, estava com as costas da camiseta molhadas de suor. Odeio! Olhei ao meu redor e vi que Nicolai não estava mais na cama, levantei e apanhei meu celular que estava ao lado da cama, o relógio marcava 06:17 da manhã. Estava atrasado para o trabalho e a vontade me faltava.
Desci as escadas e encontrei Nicolai sentado no braço do sofá olhando pela janela a alvorada. Caminhei em sua direção e ele disse que Beth estava chegando. Antes que eu pudesse me aproximar a campainha tocou. Era Beth.
Ela entrou às pressas e largou a bolsa no sofá que fez barulho de diversos “equipamentos femininos” se batendo, entre eles reconheci o som de dois frascos de perfume em confronto.
- Eu quase matei um cara... – Ela disse exasperada e se jogou ao chão, ficou sentada com as mãos sobre a cabeça.
Não sabia o que pensar ou falar, eu estava em choque, putaqueopariu.
Ela continuou – Estava na balada, conheci um cara e fui pra casa dele, ele tentou me matar e eu furei o olho dele e por pouco não o matei... Não sei o que houve comigo, aquela não parecia comigo, não era eu! Não era eu! – Ela apertou as mãos contra a cabeça e falou num timbre mais alto – Eu conseguia sentir uma agressividade que não era minha, ela me dominou. Não conseguia agir. Quando entrei no taxi minha mente voltou a tona e fiquei em choque – Beth largou as mãos sobre o colo, limpou a maquiagem borrada e levantou-se.
Antes que ela pudesse continuar, Nicolai falou:
- Aquela não era você. Alguma coisa está manipulando as coisas – Ele falava num tom de seriedade que por pouco não achava que era outra pessoa falando – Vamos consultar o oráculo.
Ao terminar ele caminhou até o quarto novamente, abriu o armário e jogou uma toalha preta arroxeada sobre o piso e se sentou diante de seu baralho. Abriu a mão e começou a embaralhar as cartas, rodá-las e por fim, abriu o baralho em forma de leque e olhou para Beth que tirou algumas cartas do baralho e colocou-as dispostas na forma celta-cruz.
Tarô ainda era um mistério para mim, tinha alguns vislumbres, claro, mas não havia estudado muito as artes divinatórias. Não fazia idéia de como o jogo saíra, mas conseguia sentir a energia pesada que emanava das imagens. Aquele não era um jogo bom.
Bom... – Começou Nicolai – Estamos com problemas – Ele estava com a face sombria, não era mais o meu Nicolai. Era a face do bruxo Nicolai.
Ele explicou da melhor forma possível que estávamos ferrados. Algo estava nos atacando e não fazia idéia do que era. O tarô não revelou a informação, o motivo ainda era desconhecido.
Na noite passada quando fui parado pelos policiais, ao mesmo tempo Nicolai foi atacado mentalmente e Beth havia sido dominada e usada, será que havia alguma relação entre os fatos? Nicolai acredita que sim.
- Se estamos sendo atacados – Comecei – Precisamos nos proteger.
Eis a minha especialidade, sempre me identificaram como um “bruxo barreira” com artes voltadas para a defesa e ilusão. Eu nunca havia exposto e nem utilizado meus poderes para algo mais sério do que a confecção de um simples amuleto de proteção, agora era a hora de explorar o que eu era capaz. Parti rumo minha casa atordoado, pegando algumas flores e ervas no caminho. Ao entrar em casa dei graças aos Deuses por minha mãe ter ido para o escritório, iria causar pela ausência no trabalho.
Subi as escadas de madeira e deitei na cama, fintei o teto por um minuto e levantei. Já sabia o que fazer. Corri para a cozinha e peguei três garrafas grandes, deixei-as em cima da mesa e desci para a garagem, abri a mala de ferramentas e achei o que queria, uma sacola de pregos de vários tamanhos. Enchi as garrafas com os pregos e entoei o encantamento, fechei as garrafas. Pronto.
Peguei o celular do bolso e liguei para o Nicolai:
- Oi! Nicolai eu fiz garrafas de bruxa para nos proteger!
Silêncio.
- Nick?
Nicolai soluçou – Não acho que isso vá nos proteger por muito tempo – Ligue a TV no noticiário...
Corri escadas acima e liguei a TV da sala, coloquei no jornal e fiquei em choque.
“Mulher de 21 anos morta, sem causa aparente. Legistas alegam morte cerebral”
Era a mulher do meu sonho! Como? Sentei no sofá e levantei o celular à orelha:
- Nick, eu sonhei com essa mulher! Ela estava morta em meu sonho!
Nicolai suspirou.
- A coisa é mais séria do que esperávamos, essa moça chamava Vitória, ela era bruxa do clã de campinas. Algo está matando bruxos, fragilizando-os mentalmente e depois os matando - ele disse – Andrew? Alô?
- Oi... – Disse por fim – Temos que deter essa coisa! Não vou ficar parado esperando ela me matar, ou pior... Matar você.
- Eu sei me cuidar, mas precisamos de informações primeiro – Disse em sua voz com tom baixo – Vou fazer umas ligações para o clã dela, enquanto isso, tome cuidado.
- Você também.
Desliguei o celular e o coloquei no bolso, parti rumo ao banheiro, era hora de um banho digno. Tirei a camiseta ao subir a escada e joguei-a no chão.
TUM TUM.
Alguém bateu na porta. Era uma batida forte, Nicolai não podia ser, Beth muito menos. Desci as escadas na ponta dos pés, e andei devagar em direção da porta.
TUM TUM TUM.
Ai caralho! Quem será? Tomei coragem e olhei no olho mágico. Uma silhueta envolta em um mando negro estava de costas do outro lado da porta. Fodeu!
[Continua]
O melhor dia da minha vida!
Há 15 anos
