Sombras

A chuva rala caia sobre os pinheiros, molhando as folhas aos poucos, mal se conseguia ver a lua em meio a tantas árvores, apenas se conseguia sentir a energia que emanava dela. Lua minguante.

Uma figura envolta em um manto negro saia da clareira em passos curtos e precisos, algo brilhava em sua mão ao luar. A sombra passava entre as árvores e passo a passo abandonava a clareira onde deixava para trás rastros de sangue, a cabeça de um bode e algumas velas e incensos. Seu trabalho estava feito.

Após alguns minutos a criatura saiu da mata e entrou em seu carro parado beira à estrada. Ela deu a partida e se dirigiu para a seu próximo objetivo, a cidade grande.


[Continua]

Medo

A campainha tocou, saltei de minha cama e meu cobertor xadrez feito nas cores amarelo e azul caiu ao chão, sobre um livro de capa velha e surrada. Meus passos na escada soavam abafados, meus pés descalços sentiam o frio mórbido do chão gelado, e a cada passo  aquela sensação em minha mente combinada com o frio do mármore sob meus pés me dava arrepios que subiam pela minha espinha. Eu estava aterrorizado. As imagens se formavam e ao mesmo tempo se iam, brincavam de esconde-esconde com minha mente, meu discernimento aos poucos começava a acreditar que era tudo obra de minha imaginação, fantasia. Mas não era! Era real, eu sabia que era!

Corri pela cozinha desviando dos móveis e quase cai sobre uma cadeira mal posicionada em frente a porta. Girei a chave na maçaneta duas vezes, e tirei o trinco. Sai ao quintal correndo no escuro e abri o portão. Andrew estava lá em frente minha porta com a face assustada, odiava ter que faze-lo sair de casa tão tarde.

- Nicolai, você está…

Ele parou de falar quando me joguei aos seus braços em um abraço apertado. Comecei instantaneamente a chorar, eu estava com medo poxa! Sabia que Andrew não me julgaria, com ele eu poderia ser eu mesmo, ele sempre estaria lá para mim. Sempre.

- Que bom que você veio! – Forcei minha voz contra minha garganta e ela saiu tremida devido ao choro – Estava com medo, me desculpe te tirar da cama tão tarde?

Andrew nada disse, apenas colocou o dedo sobre meus lábios e me silenciou. Me apertou mais forte contra seu corpo e por fim disse:

- Acho melhor entrarmos, não é seguro ficar aqui essa hora.

Respondi com um aceno de cabeça e abri o portão para ele. Caminhamos pelo quintal e entramos na cozinha, acendi a luz e voltei a cadeira para sua posição de origem, perto da mesa. Fiz sinal para ele me seguir em silêncio e ele nada respondeu. Subimos as escadas e logo estávamos em meu quarto desarrumado. Ao entrar esperei Andrew e tranquei a porta, arrumei a cama para que ele pudesse se sentar e olhei para seu rosto. Andrew continuava lindo, mesmo com as órbitas de seus olhos enegrecidas devido ao excesso de trabalho e constantes madrugadas fazendo projetos para a faculdade. Abri a boca para falar, mas ele foi mais rápido.

- Você está bem? Nicolai o que houve? – Sua voz demonstrava preocupação, Andrew sempre fora como um pai ou irmão mais velho para mim – Vim o mais rápido que pude!

Desviei o olhar, me senti envergonhado de ser sempre uma criança. Sempre dependendo da ajuda de Andrew e Beth. Quando eu iria conseguir resolver meus próprios problemas?

- Eu, fui atacado… Bem, acho que por um espírito – Disse por fim – Não sei exatamente o que era, mas tentou dobrar minha vontade, ele sussurrava em meu ouvido coisas horríveis – Engasguei com minha saliva – Ele… Ele não conseguiu me controlar, então foi embora.

Desabei a chorar, meu corpo tremia incontrolavelmente. O que teria acontecido comigo essa noite? Eu conseguira sentir a pressão de uma mente contra a minha, não sei ao certo como consegui escapar daquela armadilha. Eu era o mais novo iniciado e sabia que até um bruxo mais experiente poderia ter sua vontade dobrada por aquela energia esmagadora.

- Eu, olhe para mim… – Andrew olhava fixamente em meus olhos, seus olhos eram de um castanho-mel que parecia líquido. Estava feliz na presença dele, estava seguro – Está tudo bem, já passou. Amanhã vamos descobrir o que aconteceu com você, ok? – Ele acenou e levantou minha cabeça quando desviei o olhar para fitar o chão de carpete escuro – Quer que eu durma aqui hoje com você?

- Quero.

Aquela noite tinha certeza que iria dormir bem. Andrew estava deitado ao meu lado, embora cansado ele me abraçava e fazia cafuné em meus cabelos e eu sabia que ele iria continuar até eu adormecer e ai sim dormir. Eu não merecia a amizade dele.

- Nicolai! – Andrew me chamou com uma tonalidade tão baixa que uma pessoa ao nosso lado não ouviria.

- Oi?

- Acho melhor mandar uma mensagem para Beth, ela é boa com oráculos e podemos descobrir a natureza do que aconteceu. O que acha?

- Perfeito!

Silêncio. Andrew continuava a me acariciar os cabelos e esperava que eu dormisse logo, mas eu ainda tinha uma coisa a falar.

- Obrigado por ser o irmão que nunca tive.

Em resposta ele me abraçou forte e me deu um beijo no rosto. Nessa noite dormi um sono sem sonhos, as únicas imagens que perduravam em minha mente eram todas de Andrew, não havia espaço para mais nada. Obrigado por tudo meu irmão.

 

[Continua]

Glamour

Ele abriu a porta para mim e entrei, era um aposento enorme, cerca de 6x6 metros quadrados mobilhados com móveis na cor marfim. Havia uma cristaleira na parede esquerda, uma bancada na parede oposta e um bar ao sul, logo à minha frente. Um tapete vermelho guiava meu caminho, Daniel estava ao meu lado segurando minha mão e me direcionando ao bar. Estava pensando como ousara ir tão longe, em um segundo estava em uma balada e em outro no carro desse cara, tá certo que ele era lindo, mas… Teria ele me drogado? Estava ficando preocupada. O bar havia espelhos nos cantos onde conseguia me olhar, procurei alguma falha na maquiagem, mas estava intacta. Estava com o cabelo negro e comprido agora preso em um coque espetado com um palito hippie feito em osso. Meus olhos estavam pintados de preto, rímel e lápis, a combinação perfeita para  realçar meus olhos verdes. Decidi me vestir com um vestido preto moderninho, com um rasgo grande na perna para chamar atenção e foi exatamente o que acontecera. Estava no apartamento de um cara que sei lá onde conhecera, sei lá como, em um apartamento sei lá onde, e iria fazer sei lá o que. Essa sensação de impotência me dava um certo prazer, meu jogo ficara mais emocionante assim.

- Quem beber algo gracinha? – Disse o cara, que chamava Daniel, acho que era isso – Que tal champanhe?

Respirei fundo, usei meu astral para parecer mais sedutora ainda e virei para ele:

- Perfeito! – Peguei o copo e enquanto ele despejava o champanhe eu fintava seus olhos azuis, sim, ele era lindo, o tipo de cara que toda garota adoraria fisgar, mas somente EU poderia pegar. Senti uma estranha alegria nesse sentimento. Dei um gole e passei a mão em seus cabelos escuros ondulados e deslizei a mão sobre seu pescoço pousando a mão em seu ombro – Por que não me mostra seu quarto, gracinha? – A palavra “gracinha” era tão ridícula que fiz questão de retribuir.

Daniel não respondeu, colocou nossas taças sobre o balcão do bar e me arrastou pelo corredor que saia do canto direito da sala, segurei minha bolsa de couro negro em minha mão esquerda e segui para o quarto quase arrastada. Ele devia estar com tesão.

Ele entrou no quarto e segurou a porta para que eu entrasse, andei sedutoramente e parei ao seu lado encostando a cabeça sobre seu ombro. Daniel fechou a porta e a trancou, tirou a chave na fechadura e colocou-a no criado-mudo ao lado esquerdo da cama. O quarto era grande, mais de quatro metros quadrados de puro luxo. A cama só de olhar era possível reparar a maciez do lençol, dos travesseiros. Havia dois criados-mudos um de cada lado da cama, em um repousara a chave da porta. Daniel andou e se sentou na beira da cama e acenou para que eu fosse até ele.

- Preciso ir ao banheiro antes – Disse.

- Ok, mas não demore boneca estou ficando louco!

Boneca? Esse cara está tirando com minha cara! Quem ele pensa que sou! Filho da puta.

- Quando menos esperar estarei em seus braços – Dei uma piscadela.

Caminhei calmamente até a única porta no aposento, ali devia ser o banheiro. Abri a porta, bingo! O banheiro era todo branco, desde os azulejos até o mármore da pia. Estava tudo muito limpo e havia uma banheira enorme de hidro-massagem que parecia maravilhosa. Joguei minha bolsa sobre o mármore da pia e comecei a procurar meu estojo de maquiagem, fiz alguns retoques desnecessários e mastiguei um trident por 10 segundos e cuspi ele no lixo. Tirei meu vestido e arrumei minha lingerie negra de renda. Olhei no espelho e estava impecável, ninguém resistiria aos meus encantos. Antes de sair chacoalhei minha bolsa até encontrar o que procurava, spray de pimenta! Coloquei ele em um canto da bolsa para caso precisasse usar seria fácil encontra-lo.

Abri a portado banheiro fazendo pose, não era mais a garota com uma beleza acanhada de menina, era uma mulher, sedutora e fatal. Vestia bem minhas máscaras. Ao entrar no quarto virei-me para encostar a porta do banheiro, embora não estivesse olhando sentia os olhos dele queimando em minhas costas, alias, mais abaixo. Ainda de costas levantei o braço sobre minha cabeça e puxei o palito de osso deixando meu cabelo negro cair ondulado sobre meus ombros e costas. Conseguia quase pegar no ar a excitação de Daniel no ar, os homens eram fáceis de serem lidos, ou melhor, a maioria deles eram fáceis…  Virei-me e caminhei devagar até onde Daniel estava, ele estava sem camisa, seu peito nu era delicioso, todo definido. Ajoelhei-me sobre a cama e ele me pegou pela cintura e me beijou. O beijo dele era doce, tinha gosto de alcaçuz ou algo parecido. Nossas línguas se entrosavam com perfeição, ele era gostoso, lindo e beijava bem, só podia ser bom de cama também! Ele me jogou na cama de forma meio brusca e eu gostei, começou a beijar minhas costas e passava a mão por todo meu corpo, ele parou por alguns instantes sua mão sobre meus seios e beijou minha nuca, meu Deus! Ele era forte, me pegava com força, de forma brusca, mas não me machucava, era bom. Viramos na cama, joguei meu corpo sobre o dele e beijei sua boca mais uma vez. Ele esticou os braços e abriu o fecho de meu sutiã que caiu sobre meu colo, arremesse-o ao chão, ao lado do meu palito hippie. Enquanto nos beijávamos não existia tempo, nem espaço, apenas aquele momento.

Daniel havia tirado suas calças, estava agora apenas com uma cueca boxer branca que marcavam um certo volume. Não era gigante e nem pequeno, dava pro gasto. Estava deitada esperando que ele tirasse a cueca e viesse deitar comigo  quando meu celular tocou, mas que cacete! Quem seria essa hora? Alias, que horas eram?

- Você não vai atender! – Exclamou Daniel.

Suspirei. Odiava receber ordens, ainda mais de um cara que eu nunca havia visto mais gordo em minha vida.

- Pode ser minha Vó, ela é idosa – Saltei da cama e caminhei em direção ao banheiro, abri a porta e tateei minha bolsa buscando o celular que tocava desesperadamente a música Paranoid Android do Radiohead.

Assim que toquei no celular me lembrei que esse era meu toque de mensagem e não de chamadas, minha Avó não sabia escrever sms’s então de quem seria a mensagem? Tirei o celular da bolsa e abri o flip, era uma mensagem de Andrew. O que ele queria agora? Será que havia descoberto onde estaria e estaria querendo atrapalhar? Enfim, já havia atrapalhado, então…

“Beth, precisamos de você agora. Andrew e Nicolai"

Fiquei perplexa com a mensagem, e me veio logo um flash em mente, Nicolai estava caído ao chão da cozinha em choque. Me assustei quando a mão de Daniel tomou o celular de minha mão e leu a mensagem. Abusado!

- Quem é Nicolai e Andrew? São seus machos? – Gritou – Sabia que havia algo de errado! Você é uma prostituta, não é? Vagabunda!

Que reação era aquela? Ele não estava em seu estado normal. Outro flash me veio em mente, nele Daniel afogava uma moça loura na banheira. Saltei para trás e disse:

- Na verdade são meus irmãos, deve ter acontecido alguma coisa com minha Vó. Preciso ir – Não ousaria gritar tudo que estava se passando em minha cabeça ou ele poderia tentar me matar! Não estava afim de ter que dar uma surra nesse bastardo. Peguei minha bolsa e passei por ele em direção ao quarto, mas ele agarrou meus cabelos com sua mão pesada e gritou em meu ouvido:

- Você acha que vou cair nessa, sua puta! Sabe o que vou fazer? Vou estuprar você e depois te estrangular! Isso não te dá tesão dá? – Ele olhava em meus olhos de forma penetrante, estremeci, mas não de medo e sim de ódio – Biscate! – Daniel  me arremessou com força sobre a cama, bati com a perna na quina, doía muito, mas não deixaria nada transparecer.

Antes que pudesse falar qualquer coisa, ele gritou mais uma vez e mais alto:

- Putinha, acho que vou te torturar antes de te matar, vou adorar meter em você vendo você chorar! Vagabunda! – Enquanto ele gritava algumas gostas de saliva voavam sobre meus pés, encolhi a perna, nojo – Minha casa é a prova de som, pode gritar à vontade que ninguém irá ouvir – Ele deu um meio sorriso esperando ver minha cara de pânico, mas não foi essa cara que ele viu.

Escorreguei para o outro lado da cama e o encarei de frente. Não havia medo em meus olhos e sim ódio. Ao olha-lo imaginava quantas mulheres ele não havia assassinado e estuprado, enfim, não importava. Ele havia achado sua sina.

Soltei uma gargalhada estridente e vi sua cara de incógnita pairando no ar.

- Querido, agradeço toda sua preocupação em me explicar cada parte de seu plano, mas quem vai gritar hoje aqui é você baby – Caminhei lentamente contornando a cama, estava sem sutiã e meus seios balançavam com meus passos elegantes – Pensei em entregar você á policia por assassinar aquela mulher na banheira, mas você merece algo muito pior.

Dessa vez foi ele que riu da minha cara, fechou o punho e mirou em minha cara, abaixei em tempo e dei-lhe um murro feroz em seu estomago, eu não era forte, mas deveria servir para tirar-lhe o ar. Bingo! Ele caiu no chão sem ar, dei mais alguns passos e agachei pegando meu sutiã e colocando-o de volta, bem melhor agora.

- O que farei com você agora honey? – Disse com sarcasmo.

- Eu vou te matar vadia! Puta! – Berrou.

Ele se levantou e me deu um chute, não machucou, mas me derrubou no chão. bati a cabeça no criado mudo, esse sim machucou! Droga!

Ele me arrastou pelo pé até perto do armário, abriu uma gaveta e pegou uma faca enorme, agora sim eu estremeci. Ele cortou o ar com sua adaga e acertou o chão, eu era mais rápida, estava em pé na sua frente. Ele me atacou mais três vezes e só tive tempo de me esquivar, estava chegando perto da parede, não havia mais como escapar… Ele deu uma brecha! Aproveitei e dei um chute eu sua cara, ele caiu no chão com o rosto encharcado em sangue.

- Uhul! 10 pontos branquelo! – Zombei.

- Eu vou te matar!

- Já ouvi essa parte! – Zombei novamente.

Antes que ele pudesse se mexer corri até ele e chutei a faca da mão dele. A faca voou e caiu debaixo da cama. Ele me deu um murro no estomago tão forte que fui arremessada contra a parede, estava sem ar! Lutava para buscar oxigênio. Engatinhei ao lado da cama e enfiei meu braço até conseguir apanhar a adaga, quando tirei a cara de baixo da cama Daniel estava com uma arma 9mm apontada para minha cara.

- Sua puta! Vou estourar seus miolos agora! – Ameaçou.

- Ha ha, você é patético! Antes de me matar quero dizer umas coisas antes… Puta, vadia, vaca, prostituta e piranha é sua mãe! Deixe-me adivinhar… - Outro flash - Sua mãe te batia, nunca te amou, te abandonou aos cuidados de seu pai, Henri o nome dele certo? Hum… Ele abusava de você, te batia, e te deixava sem comer, pobre garoto! – Daniel tremia – Não pense que isso te dá o direito de fazer o mesmo com os outros, bastardo!

- Co-como você sabe…

Respondi instantaneamente

- Eu sei de muitas coisas que você desconhece, e uma delas é que você não vai matar ninguém hoje!

Ele disparou, não havia tempo para esquiva e muito menos para desarmá-lo. Tive que recorrer ao poder, o tempo parou. A bala estava a poucos centímetros de minha face. Levantei e caminhei até o banheiro, me vesti com calma e peguei minha bolsa. Entrei no quarto, tirei a arma da mão dele e joguei-a sobre a cama. Rasguei alguns lençóis e amarrei seus braços e pernas. Era difícil mover as pessoas que estavam em movimento quando usava esse tipo de esfera de poder, as coisas eram pesadas. Eu sabia que esse ato de parar o tempo me geraria paradoxo, mas era vida ou morte… O que eu podia fazer?

Quebrei a esfera do tempo e tudo voltou à velocidade normal. A bala voou até a parede e o cara estava no canto do quarto.

- Mas… que droga! O que você fez… Mas como? O que está… Quem é você!? – Berrou.

- Sua voz me cansa… Vou embora e deixar você ai e vou chamar a polícia para prender você – Disse calmamente, fazendo novamente meu coque e prendendo com o espeto de osso.

Ele riu…

- Vou caçar você mocinha e te matar da pior forma possível, nunca vou esquecer esse rostinho! Vou subornar o policial, e contratar uma gangue para te pegar! vadia! – Ele gargalhou.

Olhei para ele e dei um sorriso meigo, coloquei a mão sobre minha face e passei sobre meus cabelos mudando sua cor de negro para ruivo e sua textura para liso para ondulado. Ele ficou perplexo.

- Você pode me encontrar assim? Hahaha. Acho que você não aprendeu a lição… Não se fala um plano para um inimigo, otário! – Berrei – Você nunca mais verá meu rosto!

Andei rapidamente até ele e levantei seu queixo e fintei seus olhos azuis com frieza, ele se assustou com a mudança de minha expressão. Dei um selinho em sua boca e com um movimento rápido tirei o espeto de osso de meu cabelo e enfiei no olho esquerdo dele – ele berrou e me xingou de todos os nomes imagináveis – Tirei o espeto e furei seu outro olho, agora ele berrava mais ainda. Agora meu espeto estava sujo de sangue e fluídos, credo! Só não iria jogá-lo fora porque era presente… Presente de Andrew.

- Alias, nunca mais verá o rosto de ninguém. Filho da puta!

Fui até o banheiro pela última vez, lavei com sabonete de erva doce o espeto e minhas mãos. Daniel continuava a gritar e isso estava me irritando.

- Quer que eu corte sua língua também gracinha? – Foquei minha entonação na última palavra.

Peguei minha bolsa com a mão esquerda e sai para o quarto, Daniel estava quietinho agora. Que pena, ele teria sido uma ótima transa. Estava pronta para partir, mas não podia deixar tudo assim… Minhas digitais estavam pela casa toda! Fechei os olhos e mentalizei a casa limpa, sem minhas impressões digitais, sem nada, eu nunca estivera ali.

- Boa noite Daniel, foi realmente uma pena não ter transado com você, mas fica pra próxima! Ha ha.

peguei a chave sobre o criado mudo e abri a porta, ao sair tranquei Daniel lá dentro. Caminhei pelo hall e finalmente saí do apartamento. Tranquei a porta e joguei a chave por baixo da porta, mentalizando que ela estaria limpa de qualquer contato meu. Desci pelo elevador até o térreo, enquanto descia olhei no espelho e me espantei de como havia ficado charmosa de cabelo ruivo! Iria praticar mais vezes o Glamour! Certeza!

Sai para a rua e chamei um taxi, informei que fosse imediatamente para o bairro Ipiranga e que fosse rápido, de lá eu o guiaria, pois não sabia o endereço de Nicolai e muito menos onde estava. Peguei meu celular e respondi a mensagem: “Tive problemas, mas estou chegando! beijo.”.

 

[Continua]

Pacto

Chovia forte enquanto caminhava e volta pra casa depois de um dia cansativo de trabalho e provas, aquele jornal estava me tirando do sério, tantos artigos para escrever em tão pouco tempo, e também estava lotado de trabalhos na faculdade, mal conseguia respirar no final de semana. Salvo o último sábado do mês no qual me encontrava com o grupo, era sagrado e não ousaria faltar por nada. Caminhava rapidamente e de modo desajeitado segurando o guarda-chuva em uma mão e com uma mochila pesada nas costas, minha mochila estava lotada, cheia de livros, trabalhos, anotações, um óculos de sol, fichário, livro com significados de ervas, carteira com documentos e 20 mangos, celular e meu punhal curvo que sempre andava para defesa pessoal, embora nunca tivesse a real necessidade de usá-lo. Meu All Star de couro preto estava todo lambusado e cheio de pequenas folhas secas que se alocaram alí quando pisei em cima de uma poça d'água.

Estava quase chegando em casa, faltava pouco mais que 4 quarteirões. Era terrivel estudar e trabalhar longe, tinha que pegar o metrô na praça da sé (trabalhava alí no Centro de São Paulo, naquele ínferno de bairro), fazer baldiação para a linha azul, seguir até a estação Vila Mariana (onde ficava minha faculdade), depois da faculdade tinha que ir até a estação Ana Rosa e pegar a linha verde, seguir até a estação final Alto do Ipiranga e de lá ia andando, morava próximo do museu do Ipiranga. Não era perto, mas gostava de caminhar, sempre me fazia bem e acabava recordando da Mãe. Olhei no relógio e era quase onze e meia, aquele professor havia segurado nossa turma até mais tarde e agora tinha que apertar o passo. A chuva cessara e parei por um segundo e guardei meu guarda-chuva dentro de uma sacola e soquei na minha mochila, que agora estava disforme, além de lotada. Continuei caminhando seguindo a avenida, estava bem escuro, alguns postes estavam apagados -provavelmente por causa da chuva - e estava tudo silencioso, enquanto caminhava ouvi uma viatura passando por uma das travessas, o som sa sirene ecoava pela escuridão aveludada da rua. Estava com um pouco de frio, fechei minha jaqueta vermelha até o pescoço e finalmente cheguei na minha rua, virei a esquina e me deparei com outra - ou a mesma - viatura na minha rua, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa o policial apontou a arma pra mim e disse:

- Parado! Mãos na cabeça!

O policial era negro, devia ter quase dois metros de altura, devia bater a cabeça para entrar na viatura e em cada lombada! Eu ri internamente, mas estava sério.

- Meu nome é Andrew, moro nessa rua, na casa amarela depois da sua viatura - Disse calmamente.

- Cala a boca! e se vira, mãos na parede e joga a mochila! - Berrou.

Nessas horas minha vontade de amaldiçoar um filha da puta desses é tentadora, mas não vale a pena. Respirei fundo. Foi quando me toquei, meu punhal estava na mochila! Se ele o achasse eu teria que me explicar e iria, com certeza, parar na delegacia. Estava de costas contra a parede enquanto o policial me revistava, outro policial estava examinando minha mochila pelo bolso maior, jogava todas minha coisas na calçada molhada, fechei os olhos e mentalizei "que eles não vejam, que eles não vejam", a imagem do punhal em minha cabeça se modificava e por fim se transformou em um óculos de leitura. Quando o policial acabou de me revistar ele me virou e ficou me encarando até o outro terminar de revistar minha mochila, agora todas as minhas coisas estava no chão, inclusive meu punhal.

- Você tá limpo, voa moleque antes que eu mude de ideia! - Disse o moreno enquanto ele se afatava indo em direção à viatura.

Me curvei e coloquei minhas coisas de volta na mochila, meus livros e fichario estavam todos molhados - policial maldito - guardei tudo, peguei o punhal e joguei no bolso da frente da mochila. Peguei minhas chaves e caminhei até minha casa amarela (A cor era ideia de minha mãe). Abri o portão e entrei tentando não fazer barulho para não acordar minha mãe, fui até a cozinha, abri a geladeira e peguei um copo de refrigerante de cola. Apanhei um prato e coloquei um pouco de macarrão que havia sobrado do almoço, estava meio grudento, mas estava gostoso. Acabei de comer, joguei o prato na pia e subi para meu quarto. A escada era de madeira e rangia a cada passo, nada alarmante, minha mãe não acordaria com isso. Virei o corredor para a direita e entrei no meu quarto, que estava completamente zoneado. Havia cuecas e meias sujas pelos cantos, camisetas e calças penduradas no armário, e a cama estava todo bagunçada. Era o limite, separei as roupas sujas e coloquei-as no cesto do banheiro, dobrei as camisetas e calças e guardei elas no armário, arrumei minha cama, abri uma gaveta e apanhei um incenso de rosa vermelha, acendi e dei uma volta pelo quarto e depois coloquei-o em seu suporte e abri a janela. Estava debruçado pensando na vida, nas provas, no meu trabalho e nos meus amigos. Me veio a lembraça do dia que fizemos o juramento. Nosso pacto.

Era uma noite de lua cheia, a clareira em que estavamos estava banhada pelo luar, ventava de leve. Estavamos todos envoltos por capas negras com o capuz sobre a cabeça. Michael segurava o Athame com a mão direita e entoava palavras ininteligíveis, porém eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Ele seguiu com o punhal na altura do umbigo e partiu em círculo no sentido horário, de leste a norte, uma luz azul forte rasgou o ar e ficou ali, parada no ar. Louis, Beth, Nicolai e Michael se posicionaram cada um em um ponto cardeal e invocaram os guardiões das torres, nesse momento sentia a terra tremer sob meus pés e o ventos soprou forte, eu estava junto com o Fernando no centro do círculo. Senti um chamado e pronunciei as palavaras que invocariam a Deusa, Fernando me seguiu e em seguida invocou o Deus. O restante do ritual de incialização era nebuloso, lembro de alguns flashes, em um deles nós dançavamos nús pelo círculo, em outro recebia uma consagração de Michael, e em um outro flash eu recebia meu símbolo de inicialização, meu pentagrama de prata que seria meu para sempre.

Voltei à realidade, como um empurrão, o vento batia forte contra meu rosto e no fundo da ventania havia um assovio que dizia "Andrew".

- Nicolai! - Exclamei.

Peguei minha mochila e sai correndo noite afora.


[Continua]

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