Chovia forte enquanto caminhava e volta pra casa depois de um dia cansativo de trabalho e provas, aquele jornal estava me tirando do sério, tantos artigos para escrever em tão pouco tempo, e também estava lotado de trabalhos na faculdade, mal conseguia respirar no final de semana. Salvo o último sábado do mês no qual me encontrava com o grupo, era sagrado e não ousaria faltar por nada. Caminhava rapidamente e de modo desajeitado segurando o guarda-chuva em uma mão e com uma mochila pesada nas costas, minha mochila estava lotada, cheia de livros, trabalhos, anotações, um óculos de sol, fichário, livro com significados de ervas, carteira com documentos e 20 mangos, celular e meu punhal curvo que sempre andava para defesa pessoal, embora nunca tivesse a real necessidade de usá-lo. Meu All Star de couro preto estava todo lambusado e cheio de pequenas folhas secas que se alocaram alí quando pisei em cima de uma poça d'água.
Estava quase chegando em casa, faltava pouco mais que 4 quarteirões. Era terrivel estudar e trabalhar longe, tinha que pegar o metrô na praça da sé (trabalhava alí no Centro de São Paulo, naquele ínferno de bairro), fazer baldiação para a linha azul, seguir até a estação Vila Mariana (onde ficava minha faculdade), depois da faculdade tinha que ir até a estação Ana Rosa e pegar a linha verde, seguir até a estação final Alto do Ipiranga e de lá ia andando, morava próximo do museu do Ipiranga. Não era perto, mas gostava de caminhar, sempre me fazia bem e acabava recordando da Mãe. Olhei no relógio e era quase onze e meia, aquele professor havia segurado nossa turma até mais tarde e agora tinha que apertar o passo. A chuva cessara e parei por um segundo e guardei meu guarda-chuva dentro de uma sacola e soquei na minha mochila, que agora estava disforme, além de lotada. Continuei caminhando seguindo a avenida, estava bem escuro, alguns postes estavam apagados -provavelmente por causa da chuva - e estava tudo silencioso, enquanto caminhava ouvi uma viatura passando por uma das travessas, o som sa sirene ecoava pela escuridão aveludada da rua. Estava com um pouco de frio, fechei minha jaqueta vermelha até o pescoço e finalmente cheguei na minha rua, virei a esquina e me deparei com outra - ou a mesma - viatura na minha rua, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa o policial apontou a arma pra mim e disse:
- Parado! Mãos na cabeça!
O policial era negro, devia ter quase dois metros de altura, devia bater a cabeça para entrar na viatura e em cada lombada! Eu ri internamente, mas estava sério.
- Meu nome é Andrew, moro nessa rua, na casa amarela depois da sua viatura - Disse calmamente.
- Cala a boca! e se vira, mãos na parede e joga a mochila! - Berrou.
Nessas horas minha vontade de amaldiçoar um filha da puta desses é tentadora, mas não vale a pena. Respirei fundo. Foi quando me toquei, meu punhal estava na mochila! Se ele o achasse eu teria que me explicar e iria, com certeza, parar na delegacia. Estava de costas contra a parede enquanto o policial me revistava, outro policial estava examinando minha mochila pelo bolso maior, jogava todas minha coisas na calçada molhada, fechei os olhos e mentalizei "que eles não vejam, que eles não vejam", a imagem do punhal em minha cabeça se modificava e por fim se transformou em um óculos de leitura. Quando o policial acabou de me revistar ele me virou e ficou me encarando até o outro terminar de revistar minha mochila, agora todas as minhas coisas estava no chão, inclusive meu punhal.
- Você tá limpo, voa moleque antes que eu mude de ideia! - Disse o moreno enquanto ele se afatava indo em direção à viatura.
Me curvei e coloquei minhas coisas de volta na mochila, meus livros e fichario estavam todos molhados - policial maldito - guardei tudo, peguei o punhal e joguei no bolso da frente da mochila. Peguei minhas chaves e caminhei até minha casa amarela (A cor era ideia de minha mãe). Abri o portão e entrei tentando não fazer barulho para não acordar minha mãe, fui até a cozinha, abri a geladeira e peguei um copo de refrigerante de cola. Apanhei um prato e coloquei um pouco de macarrão que havia sobrado do almoço, estava meio grudento, mas estava gostoso. Acabei de comer, joguei o prato na pia e subi para meu quarto. A escada era de madeira e rangia a cada passo, nada alarmante, minha mãe não acordaria com isso. Virei o corredor para a direita e entrei no meu quarto, que estava completamente zoneado. Havia cuecas e meias sujas pelos cantos, camisetas e calças penduradas no armário, e a cama estava todo bagunçada. Era o limite, separei as roupas sujas e coloquei-as no cesto do banheiro, dobrei as camisetas e calças e guardei elas no armário, arrumei minha cama, abri uma gaveta e apanhei um incenso de rosa vermelha, acendi e dei uma volta pelo quarto e depois coloquei-o em seu suporte e abri a janela. Estava debruçado pensando na vida, nas provas, no meu trabalho e nos meus amigos. Me veio a lembraça do dia que fizemos o juramento. Nosso pacto.
Era uma noite de lua cheia, a clareira em que estavamos estava banhada pelo luar, ventava de leve. Estavamos todos envoltos por capas negras com o capuz sobre a cabeça. Michael segurava o Athame com a mão direita e entoava palavras ininteligíveis, porém eu sabia exatamente o que ele estava fazendo. Ele seguiu com o punhal na altura do umbigo e partiu em círculo no sentido horário, de leste a norte, uma luz azul forte rasgou o ar e ficou ali, parada no ar. Louis, Beth, Nicolai e Michael se posicionaram cada um em um ponto cardeal e invocaram os guardiões das torres, nesse momento sentia a terra tremer sob meus pés e o ventos soprou forte, eu estava junto com o Fernando no centro do círculo. Senti um chamado e pronunciei as palavaras que invocariam a Deusa, Fernando me seguiu e em seguida invocou o Deus. O restante do ritual de incialização era nebuloso, lembro de alguns flashes, em um deles nós dançavamos nús pelo círculo, em outro recebia uma consagração de Michael, e em um outro flash eu recebia meu símbolo de inicialização, meu pentagrama de prata que seria meu para sempre.
Voltei à realidade, como um empurrão, o vento batia forte contra meu rosto e no fundo da ventania havia um assovio que dizia "Andrew".
- Nicolai! - Exclamei.
Peguei minha mochila e sai correndo noite afora.
[Continua]
O melhor dia da minha vida!
Há 15 anos
