Glamour

Ele abriu a porta para mim e entrei, era um aposento enorme, cerca de 6x6 metros quadrados mobilhados com móveis na cor marfim. Havia uma cristaleira na parede esquerda, uma bancada na parede oposta e um bar ao sul, logo à minha frente. Um tapete vermelho guiava meu caminho, Daniel estava ao meu lado segurando minha mão e me direcionando ao bar. Estava pensando como ousara ir tão longe, em um segundo estava em uma balada e em outro no carro desse cara, tá certo que ele era lindo, mas… Teria ele me drogado? Estava ficando preocupada. O bar havia espelhos nos cantos onde conseguia me olhar, procurei alguma falha na maquiagem, mas estava intacta. Estava com o cabelo negro e comprido agora preso em um coque espetado com um palito hippie feito em osso. Meus olhos estavam pintados de preto, rímel e lápis, a combinação perfeita para  realçar meus olhos verdes. Decidi me vestir com um vestido preto moderninho, com um rasgo grande na perna para chamar atenção e foi exatamente o que acontecera. Estava no apartamento de um cara que sei lá onde conhecera, sei lá como, em um apartamento sei lá onde, e iria fazer sei lá o que. Essa sensação de impotência me dava um certo prazer, meu jogo ficara mais emocionante assim.

- Quem beber algo gracinha? – Disse o cara, que chamava Daniel, acho que era isso – Que tal champanhe?

Respirei fundo, usei meu astral para parecer mais sedutora ainda e virei para ele:

- Perfeito! – Peguei o copo e enquanto ele despejava o champanhe eu fintava seus olhos azuis, sim, ele era lindo, o tipo de cara que toda garota adoraria fisgar, mas somente EU poderia pegar. Senti uma estranha alegria nesse sentimento. Dei um gole e passei a mão em seus cabelos escuros ondulados e deslizei a mão sobre seu pescoço pousando a mão em seu ombro – Por que não me mostra seu quarto, gracinha? – A palavra “gracinha” era tão ridícula que fiz questão de retribuir.

Daniel não respondeu, colocou nossas taças sobre o balcão do bar e me arrastou pelo corredor que saia do canto direito da sala, segurei minha bolsa de couro negro em minha mão esquerda e segui para o quarto quase arrastada. Ele devia estar com tesão.

Ele entrou no quarto e segurou a porta para que eu entrasse, andei sedutoramente e parei ao seu lado encostando a cabeça sobre seu ombro. Daniel fechou a porta e a trancou, tirou a chave na fechadura e colocou-a no criado-mudo ao lado esquerdo da cama. O quarto era grande, mais de quatro metros quadrados de puro luxo. A cama só de olhar era possível reparar a maciez do lençol, dos travesseiros. Havia dois criados-mudos um de cada lado da cama, em um repousara a chave da porta. Daniel andou e se sentou na beira da cama e acenou para que eu fosse até ele.

- Preciso ir ao banheiro antes – Disse.

- Ok, mas não demore boneca estou ficando louco!

Boneca? Esse cara está tirando com minha cara! Quem ele pensa que sou! Filho da puta.

- Quando menos esperar estarei em seus braços – Dei uma piscadela.

Caminhei calmamente até a única porta no aposento, ali devia ser o banheiro. Abri a porta, bingo! O banheiro era todo branco, desde os azulejos até o mármore da pia. Estava tudo muito limpo e havia uma banheira enorme de hidro-massagem que parecia maravilhosa. Joguei minha bolsa sobre o mármore da pia e comecei a procurar meu estojo de maquiagem, fiz alguns retoques desnecessários e mastiguei um trident por 10 segundos e cuspi ele no lixo. Tirei meu vestido e arrumei minha lingerie negra de renda. Olhei no espelho e estava impecável, ninguém resistiria aos meus encantos. Antes de sair chacoalhei minha bolsa até encontrar o que procurava, spray de pimenta! Coloquei ele em um canto da bolsa para caso precisasse usar seria fácil encontra-lo.

Abri a portado banheiro fazendo pose, não era mais a garota com uma beleza acanhada de menina, era uma mulher, sedutora e fatal. Vestia bem minhas máscaras. Ao entrar no quarto virei-me para encostar a porta do banheiro, embora não estivesse olhando sentia os olhos dele queimando em minhas costas, alias, mais abaixo. Ainda de costas levantei o braço sobre minha cabeça e puxei o palito de osso deixando meu cabelo negro cair ondulado sobre meus ombros e costas. Conseguia quase pegar no ar a excitação de Daniel no ar, os homens eram fáceis de serem lidos, ou melhor, a maioria deles eram fáceis…  Virei-me e caminhei devagar até onde Daniel estava, ele estava sem camisa, seu peito nu era delicioso, todo definido. Ajoelhei-me sobre a cama e ele me pegou pela cintura e me beijou. O beijo dele era doce, tinha gosto de alcaçuz ou algo parecido. Nossas línguas se entrosavam com perfeição, ele era gostoso, lindo e beijava bem, só podia ser bom de cama também! Ele me jogou na cama de forma meio brusca e eu gostei, começou a beijar minhas costas e passava a mão por todo meu corpo, ele parou por alguns instantes sua mão sobre meus seios e beijou minha nuca, meu Deus! Ele era forte, me pegava com força, de forma brusca, mas não me machucava, era bom. Viramos na cama, joguei meu corpo sobre o dele e beijei sua boca mais uma vez. Ele esticou os braços e abriu o fecho de meu sutiã que caiu sobre meu colo, arremesse-o ao chão, ao lado do meu palito hippie. Enquanto nos beijávamos não existia tempo, nem espaço, apenas aquele momento.

Daniel havia tirado suas calças, estava agora apenas com uma cueca boxer branca que marcavam um certo volume. Não era gigante e nem pequeno, dava pro gasto. Estava deitada esperando que ele tirasse a cueca e viesse deitar comigo  quando meu celular tocou, mas que cacete! Quem seria essa hora? Alias, que horas eram?

- Você não vai atender! – Exclamou Daniel.

Suspirei. Odiava receber ordens, ainda mais de um cara que eu nunca havia visto mais gordo em minha vida.

- Pode ser minha Vó, ela é idosa – Saltei da cama e caminhei em direção ao banheiro, abri a porta e tateei minha bolsa buscando o celular que tocava desesperadamente a música Paranoid Android do Radiohead.

Assim que toquei no celular me lembrei que esse era meu toque de mensagem e não de chamadas, minha Avó não sabia escrever sms’s então de quem seria a mensagem? Tirei o celular da bolsa e abri o flip, era uma mensagem de Andrew. O que ele queria agora? Será que havia descoberto onde estaria e estaria querendo atrapalhar? Enfim, já havia atrapalhado, então…

“Beth, precisamos de você agora. Andrew e Nicolai"

Fiquei perplexa com a mensagem, e me veio logo um flash em mente, Nicolai estava caído ao chão da cozinha em choque. Me assustei quando a mão de Daniel tomou o celular de minha mão e leu a mensagem. Abusado!

- Quem é Nicolai e Andrew? São seus machos? – Gritou – Sabia que havia algo de errado! Você é uma prostituta, não é? Vagabunda!

Que reação era aquela? Ele não estava em seu estado normal. Outro flash me veio em mente, nele Daniel afogava uma moça loura na banheira. Saltei para trás e disse:

- Na verdade são meus irmãos, deve ter acontecido alguma coisa com minha Vó. Preciso ir – Não ousaria gritar tudo que estava se passando em minha cabeça ou ele poderia tentar me matar! Não estava afim de ter que dar uma surra nesse bastardo. Peguei minha bolsa e passei por ele em direção ao quarto, mas ele agarrou meus cabelos com sua mão pesada e gritou em meu ouvido:

- Você acha que vou cair nessa, sua puta! Sabe o que vou fazer? Vou estuprar você e depois te estrangular! Isso não te dá tesão dá? – Ele olhava em meus olhos de forma penetrante, estremeci, mas não de medo e sim de ódio – Biscate! – Daniel  me arremessou com força sobre a cama, bati com a perna na quina, doía muito, mas não deixaria nada transparecer.

Antes que pudesse falar qualquer coisa, ele gritou mais uma vez e mais alto:

- Putinha, acho que vou te torturar antes de te matar, vou adorar meter em você vendo você chorar! Vagabunda! – Enquanto ele gritava algumas gostas de saliva voavam sobre meus pés, encolhi a perna, nojo – Minha casa é a prova de som, pode gritar à vontade que ninguém irá ouvir – Ele deu um meio sorriso esperando ver minha cara de pânico, mas não foi essa cara que ele viu.

Escorreguei para o outro lado da cama e o encarei de frente. Não havia medo em meus olhos e sim ódio. Ao olha-lo imaginava quantas mulheres ele não havia assassinado e estuprado, enfim, não importava. Ele havia achado sua sina.

Soltei uma gargalhada estridente e vi sua cara de incógnita pairando no ar.

- Querido, agradeço toda sua preocupação em me explicar cada parte de seu plano, mas quem vai gritar hoje aqui é você baby – Caminhei lentamente contornando a cama, estava sem sutiã e meus seios balançavam com meus passos elegantes – Pensei em entregar você á policia por assassinar aquela mulher na banheira, mas você merece algo muito pior.

Dessa vez foi ele que riu da minha cara, fechou o punho e mirou em minha cara, abaixei em tempo e dei-lhe um murro feroz em seu estomago, eu não era forte, mas deveria servir para tirar-lhe o ar. Bingo! Ele caiu no chão sem ar, dei mais alguns passos e agachei pegando meu sutiã e colocando-o de volta, bem melhor agora.

- O que farei com você agora honey? – Disse com sarcasmo.

- Eu vou te matar vadia! Puta! – Berrou.

Ele se levantou e me deu um chute, não machucou, mas me derrubou no chão. bati a cabeça no criado mudo, esse sim machucou! Droga!

Ele me arrastou pelo pé até perto do armário, abriu uma gaveta e pegou uma faca enorme, agora sim eu estremeci. Ele cortou o ar com sua adaga e acertou o chão, eu era mais rápida, estava em pé na sua frente. Ele me atacou mais três vezes e só tive tempo de me esquivar, estava chegando perto da parede, não havia mais como escapar… Ele deu uma brecha! Aproveitei e dei um chute eu sua cara, ele caiu no chão com o rosto encharcado em sangue.

- Uhul! 10 pontos branquelo! – Zombei.

- Eu vou te matar!

- Já ouvi essa parte! – Zombei novamente.

Antes que ele pudesse se mexer corri até ele e chutei a faca da mão dele. A faca voou e caiu debaixo da cama. Ele me deu um murro no estomago tão forte que fui arremessada contra a parede, estava sem ar! Lutava para buscar oxigênio. Engatinhei ao lado da cama e enfiei meu braço até conseguir apanhar a adaga, quando tirei a cara de baixo da cama Daniel estava com uma arma 9mm apontada para minha cara.

- Sua puta! Vou estourar seus miolos agora! – Ameaçou.

- Ha ha, você é patético! Antes de me matar quero dizer umas coisas antes… Puta, vadia, vaca, prostituta e piranha é sua mãe! Deixe-me adivinhar… - Outro flash - Sua mãe te batia, nunca te amou, te abandonou aos cuidados de seu pai, Henri o nome dele certo? Hum… Ele abusava de você, te batia, e te deixava sem comer, pobre garoto! – Daniel tremia – Não pense que isso te dá o direito de fazer o mesmo com os outros, bastardo!

- Co-como você sabe…

Respondi instantaneamente

- Eu sei de muitas coisas que você desconhece, e uma delas é que você não vai matar ninguém hoje!

Ele disparou, não havia tempo para esquiva e muito menos para desarmá-lo. Tive que recorrer ao poder, o tempo parou. A bala estava a poucos centímetros de minha face. Levantei e caminhei até o banheiro, me vesti com calma e peguei minha bolsa. Entrei no quarto, tirei a arma da mão dele e joguei-a sobre a cama. Rasguei alguns lençóis e amarrei seus braços e pernas. Era difícil mover as pessoas que estavam em movimento quando usava esse tipo de esfera de poder, as coisas eram pesadas. Eu sabia que esse ato de parar o tempo me geraria paradoxo, mas era vida ou morte… O que eu podia fazer?

Quebrei a esfera do tempo e tudo voltou à velocidade normal. A bala voou até a parede e o cara estava no canto do quarto.

- Mas… que droga! O que você fez… Mas como? O que está… Quem é você!? – Berrou.

- Sua voz me cansa… Vou embora e deixar você ai e vou chamar a polícia para prender você – Disse calmamente, fazendo novamente meu coque e prendendo com o espeto de osso.

Ele riu…

- Vou caçar você mocinha e te matar da pior forma possível, nunca vou esquecer esse rostinho! Vou subornar o policial, e contratar uma gangue para te pegar! vadia! – Ele gargalhou.

Olhei para ele e dei um sorriso meigo, coloquei a mão sobre minha face e passei sobre meus cabelos mudando sua cor de negro para ruivo e sua textura para liso para ondulado. Ele ficou perplexo.

- Você pode me encontrar assim? Hahaha. Acho que você não aprendeu a lição… Não se fala um plano para um inimigo, otário! – Berrei – Você nunca mais verá meu rosto!

Andei rapidamente até ele e levantei seu queixo e fintei seus olhos azuis com frieza, ele se assustou com a mudança de minha expressão. Dei um selinho em sua boca e com um movimento rápido tirei o espeto de osso de meu cabelo e enfiei no olho esquerdo dele – ele berrou e me xingou de todos os nomes imagináveis – Tirei o espeto e furei seu outro olho, agora ele berrava mais ainda. Agora meu espeto estava sujo de sangue e fluídos, credo! Só não iria jogá-lo fora porque era presente… Presente de Andrew.

- Alias, nunca mais verá o rosto de ninguém. Filho da puta!

Fui até o banheiro pela última vez, lavei com sabonete de erva doce o espeto e minhas mãos. Daniel continuava a gritar e isso estava me irritando.

- Quer que eu corte sua língua também gracinha? – Foquei minha entonação na última palavra.

Peguei minha bolsa com a mão esquerda e sai para o quarto, Daniel estava quietinho agora. Que pena, ele teria sido uma ótima transa. Estava pronta para partir, mas não podia deixar tudo assim… Minhas digitais estavam pela casa toda! Fechei os olhos e mentalizei a casa limpa, sem minhas impressões digitais, sem nada, eu nunca estivera ali.

- Boa noite Daniel, foi realmente uma pena não ter transado com você, mas fica pra próxima! Ha ha.

peguei a chave sobre o criado mudo e abri a porta, ao sair tranquei Daniel lá dentro. Caminhei pelo hall e finalmente saí do apartamento. Tranquei a porta e joguei a chave por baixo da porta, mentalizando que ela estaria limpa de qualquer contato meu. Desci pelo elevador até o térreo, enquanto descia olhei no espelho e me espantei de como havia ficado charmosa de cabelo ruivo! Iria praticar mais vezes o Glamour! Certeza!

Sai para a rua e chamei um taxi, informei que fosse imediatamente para o bairro Ipiranga e que fosse rápido, de lá eu o guiaria, pois não sabia o endereço de Nicolai e muito menos onde estava. Peguei meu celular e respondi a mensagem: “Tive problemas, mas estou chegando! beijo.”.

 

[Continua]

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