Medo

A campainha tocou, saltei de minha cama e meu cobertor xadrez feito nas cores amarelo e azul caiu ao chão, sobre um livro de capa velha e surrada. Meus passos na escada soavam abafados, meus pés descalços sentiam o frio mórbido do chão gelado, e a cada passo  aquela sensação em minha mente combinada com o frio do mármore sob meus pés me dava arrepios que subiam pela minha espinha. Eu estava aterrorizado. As imagens se formavam e ao mesmo tempo se iam, brincavam de esconde-esconde com minha mente, meu discernimento aos poucos começava a acreditar que era tudo obra de minha imaginação, fantasia. Mas não era! Era real, eu sabia que era!

Corri pela cozinha desviando dos móveis e quase cai sobre uma cadeira mal posicionada em frente a porta. Girei a chave na maçaneta duas vezes, e tirei o trinco. Sai ao quintal correndo no escuro e abri o portão. Andrew estava lá em frente minha porta com a face assustada, odiava ter que faze-lo sair de casa tão tarde.

- Nicolai, você está…

Ele parou de falar quando me joguei aos seus braços em um abraço apertado. Comecei instantaneamente a chorar, eu estava com medo poxa! Sabia que Andrew não me julgaria, com ele eu poderia ser eu mesmo, ele sempre estaria lá para mim. Sempre.

- Que bom que você veio! – Forcei minha voz contra minha garganta e ela saiu tremida devido ao choro – Estava com medo, me desculpe te tirar da cama tão tarde?

Andrew nada disse, apenas colocou o dedo sobre meus lábios e me silenciou. Me apertou mais forte contra seu corpo e por fim disse:

- Acho melhor entrarmos, não é seguro ficar aqui essa hora.

Respondi com um aceno de cabeça e abri o portão para ele. Caminhamos pelo quintal e entramos na cozinha, acendi a luz e voltei a cadeira para sua posição de origem, perto da mesa. Fiz sinal para ele me seguir em silêncio e ele nada respondeu. Subimos as escadas e logo estávamos em meu quarto desarrumado. Ao entrar esperei Andrew e tranquei a porta, arrumei a cama para que ele pudesse se sentar e olhei para seu rosto. Andrew continuava lindo, mesmo com as órbitas de seus olhos enegrecidas devido ao excesso de trabalho e constantes madrugadas fazendo projetos para a faculdade. Abri a boca para falar, mas ele foi mais rápido.

- Você está bem? Nicolai o que houve? – Sua voz demonstrava preocupação, Andrew sempre fora como um pai ou irmão mais velho para mim – Vim o mais rápido que pude!

Desviei o olhar, me senti envergonhado de ser sempre uma criança. Sempre dependendo da ajuda de Andrew e Beth. Quando eu iria conseguir resolver meus próprios problemas?

- Eu, fui atacado… Bem, acho que por um espírito – Disse por fim – Não sei exatamente o que era, mas tentou dobrar minha vontade, ele sussurrava em meu ouvido coisas horríveis – Engasguei com minha saliva – Ele… Ele não conseguiu me controlar, então foi embora.

Desabei a chorar, meu corpo tremia incontrolavelmente. O que teria acontecido comigo essa noite? Eu conseguira sentir a pressão de uma mente contra a minha, não sei ao certo como consegui escapar daquela armadilha. Eu era o mais novo iniciado e sabia que até um bruxo mais experiente poderia ter sua vontade dobrada por aquela energia esmagadora.

- Eu, olhe para mim… – Andrew olhava fixamente em meus olhos, seus olhos eram de um castanho-mel que parecia líquido. Estava feliz na presença dele, estava seguro – Está tudo bem, já passou. Amanhã vamos descobrir o que aconteceu com você, ok? – Ele acenou e levantou minha cabeça quando desviei o olhar para fitar o chão de carpete escuro – Quer que eu durma aqui hoje com você?

- Quero.

Aquela noite tinha certeza que iria dormir bem. Andrew estava deitado ao meu lado, embora cansado ele me abraçava e fazia cafuné em meus cabelos e eu sabia que ele iria continuar até eu adormecer e ai sim dormir. Eu não merecia a amizade dele.

- Nicolai! – Andrew me chamou com uma tonalidade tão baixa que uma pessoa ao nosso lado não ouviria.

- Oi?

- Acho melhor mandar uma mensagem para Beth, ela é boa com oráculos e podemos descobrir a natureza do que aconteceu. O que acha?

- Perfeito!

Silêncio. Andrew continuava a me acariciar os cabelos e esperava que eu dormisse logo, mas eu ainda tinha uma coisa a falar.

- Obrigado por ser o irmão que nunca tive.

Em resposta ele me abraçou forte e me deu um beijo no rosto. Nessa noite dormi um sono sem sonhos, as únicas imagens que perduravam em minha mente eram todas de Andrew, não havia espaço para mais nada. Obrigado por tudo meu irmão.

 

[Continua]

Templates para blogger 2007